sexta-feira, 10 de julho de 2026

Leva sangue de porco e demora 5 horas a confecionar e são um doce único da zona do Baixo Mondego na Figueira da Foz!

Há doces que atravessam gerações e carregam consigo histórias, rituais e memórias de outros tempos. Na Figueira da Foz, um dos exemplos mais peculiares da gastronomia tradicional são as Papas de Moado, uma iguaria associada às antigas matanças do porco e que continua a marcar a identidade gastronómica de algumas freguesias do concelho.
 

Segundo o Notícias de Coimbra, referindo-se à Carta Gastronómica da Região de Coimbra, os relatos dos figueirenses sobre as matanças revelam práticas semelhantes às existentes noutras zonas da região, com várias refeições ligadas a esta tradição. O sarrabulho surge como “o principal protagonista”, mas não era o único prato preparado durante estes dias de trabalho comunitário.

A mesma fonte destaca também o antigo uso do chamado sal tempero, muito presente nas cozinhas de outros tempos, quando o sal limpo tinha pouca utilização. Este preparado era guardado em recipientes de barro: colocava-se uma camada de sal, seguida de torresmos e lombos de porco, tudo coberto com banha líquida. Depois de repousar cerca de um mês, começava a ser utilizado como tempero.

As tradições ligadas à matança variavam de local para local, dando origem a diferentes versões de pratos como as cacholas, as chouriças, o sal manteiga e as próprias Papas de Moado. A Carta Gastronómica refere que “as nuances dos tradicionais pratos da matança apresentam-se conforme a localização no território”, sem que isso coloque em causa a autenticidade de cada receita.

Apesar do nome e dos ingredientes pouco habituais, as Papas de Moado são consideradas um dos doces tradicionais mais emblemáticos do concelho da Figueira da Foz. A receita é preparada a partir de sangue fresco, sendo uma tradição particularmente enraizada nas freguesias de Buarcos, Maiorca e Vila Verde.

A mesma fonte descreve esta sobremesa como uma preparação que, depois de confecionada, adquire uma “textura cremosa, castanha escura” e que é servida em pratos ou travessas. Para muitos, é uma especialidade muito apreciada; para outros, o ingrediente principal causa alguma estranheza.

“Havia, também, um doce regional por excelência, saborosíssimo (…) as papas de moado”, destacando a ligação desta receita às mulheres figueirenses responsáveis pela sua confeção tradicional, pode ler-se no documento.

A receita tradicional inclui ingredientes como: 3 litros de água (mais 3 litros para dissolver a farinha); 1 quilo de farinha; 250 mililitros de sangue; 1 quilo de açúcar; banha e sal; casca de limão; cominhos e cravinhos; nozes, pinhões e passas.

A preparação começa com a dissolução da farinha em água fria juntamente com o sangue, sendo depois o preparado coado para um tacho com água quente. Junta-se a banha, o sal, a casca de limão, os cominhos e os cravinhos, deixando cozinhar lentamente.

A confeção exige tempo e paciência: a mistura deve ser mexida constantemente durante cerca de três horas antes da adição do açúcar. Depois, continua a cozinhar por mais aproximadamente duas horas, até atingir a consistência desejada. No final, acrescentam-se os frutos secos e a sobremesa é colocada numa travessa, podendo ser decorada com canela.

Embora tenha origem nas antigas matanças do porco, a tradição das Papas de Moado não ficou presa ao passado. Atualmente, a iguaria é preparada durante todo o ano, sobretudo por coletividades de freguesias onde a receita mantém maior expressão, mas também pode ser encontrada em alguns restaurantes locais e em feiras gastronómicas.

Mais do que um simples doce, as Papas de Moado representam uma ligação à memória rural da Figueira da Foz e às tradições familiares que ajudaram a construir a identidade gastronómica da região.

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N.R. - As papas de moado são um doce conventual e popular tradicional da região da Figueira da Foz e, de forma mais abrangente, de toda a zona do Baixo Mondego.

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